História Política

Brasil e seu autoflagelo

Brasil e seu autoflagelo

“O castigo dos bons que não se interessam por política é serem governados pelos maus”

Platão

O Brasil tem o dom do autoflagelo e de se destruir de tempos em tempos. Sempre que dá sinais de melhoria, algo acontece para abalar suas estruturas e desmantelar suas instituições, gerando perdas irrecuperáveis à economia, credibilidade, segurança jurídica e estabilidade social. É como uma fênix que após viver 300 anos se deixa arder em um braseiro, para em seguida renascer das próprias cinzas. No caso do Brasil, este prazo é de 10 anos e, sempre que renasce, falta-lhe um pedaço.

Isto se dá por falta de lideranças políticas capazes de unificar o país, fazer crescer a economia, melhorar as condições sociais da sua população e levá-lo a patamares mais importantes no contexto mundial.

Historicamente, a política brasileira é conturbada e com lideranças fracas. À queda do império, sobreveio a República Velha. Visto a partir de hoje, uma garatuja de uma experiência republicana em que o povo não participava, nem mesmo as mulheres, e o poder se alternava entre o “café” e o “leite”, as ditas elites de SP e MG.

No golpe de estado de 30, Getúlio tomou o poder e começou o seu reinado. Empossou-se com o prestígio do Tenentismo e com o apoio dos Integralistas, até que veio em 37 o Estado Novo. Este produziu o primeiro e único ditador realmente digno (ou indigno) desse título no Brasil.

Depois veio a queda de Getúlio, o período turbulento da democracia até o parlamentarismo de Jango, de 61. Daí em diante, a queda de Jango, o regime militar de 64, a redemocratização e a Nova República, e tudo que veio depois: Impeachment de Collor, Plano Real, Lula 1 e 2, Mensalão, Dilma, Impeachment, Lava Jato, criminalização da política, Bolsonaro, polarização, discursos de ódio, descrença geral de tudo e de todos, e finalmente o 08 de janeiro de 2023.

Reputo esta constante mortificação autoimposta à escassez de líderes políticos competentes e comprometidos com o país. Lula é uma exceção, não necessariamente por grandes feitos, mas seus créditos estão atrelados ao respeito à democracia e a anos de dedicação exclusiva à política, perdendo mais do que ganhando eleições e adquirindo traquejo para lidar com a balburdia atual. Hoje em dia, qualquer ignóbil despreparado se candidata a cargos eletivos de olho nas enormes verbas que orbitam o cargo.

Nosso sistema não incentiva que o político seja forjado lentamente para ganhar experiência e exercer liderança para voos mais altos. Os partidos consolidados e representativos pecam por não terem um programa bem definido de sucessão. Exemplo disso é a falta de sucessor do Lula no PT e o desaparecimento do PSDB.

O maior problema é que a falta de lideranças políticas competentes não restringe seu impacto às gestões calamitosas. Estamos presenciando que esta acefalia de liderança política é campo fértil para novos golpes e tomadas de poder pela força. Lava Jato tentou o golpe através do aparelhamento do judiciário. Por um acaso do destino, um hacker desmantelou este ardil, mas somente depois de gerar prejuízo de dezenas de bilhões de reais ao país, milhares de desempregados e destruir setores empresariais brasileiros de ponta, levando o país a mais uma derrocada. Com a recente operação da Polícia Federal, presenciamos que o 08 de janeiro foi meticulosamente planejado para tomar o poder com a participação de militares da ativa e prender ministros do Supremo Tribunal Federal. Quase deu certo, mas este fracasso de golpe de estado não significa o fim da ideia.

Para romper esse ciclo de autoflagelação, o país precisa de lideranças comprometidas com a estabilidade institucional, o desenvolvimento sustentável e a justiça social. Isto requer não apenas medidas emergenciais para enfrentar crises imediatas, mas também reformas estruturais profundas para promover a inclusão, a igualdade de oportunidades e a eficiência do Estado. Além disso, é fundamental fortalecer as instituições democráticas e promover a participação cívica e o diálogo social. Somente com um compromisso sério e duradouro com esses valores e princípios o país poderá superar os ciclos de autoflagelação e construir um futuro mais próspero, justo e pacífico para todos os seus cidadãos.

Por ora, com a Lava Jato e a tentativa de golpe de 08 de janeiro, o Brasil mais uma vez deu um aperto na cinta de cilício que dilacera sua carne e rasga suas entranhas.

About Author

Maurício Ferro

O que o futebol, vinhos, direito, política e economia têm em comum? Muito mais do que você imagina. E ao contrário do que prega o ditado popular, podem e devem ser debatidos e analisados sim. Sejam bem-vindos ao site de Maurício Ferro, um canal para se criar e trocar pensamentos e opiniões. Maurício Ferro é advogado, formado pela PUC do Rio de Janeiro, com mestrado e especializações realizadas em universidades como a London School e University of London. Cursou OPM na Harvard Business School. Autor de trabalhos publicados nas áreas comercial e de mercado de capitais, e com atuação no Conselho de Administração de grandes empresas, fundamentou sua carreira jurídica e executiva com foco do Direito Empresarial. Mas sua paixão vai além do mundo corporativo. Flamenguista apaixonado, Mauricio conhece os meandros do mundo profissional do futebol e de outros esportes. É sócio em empresas inovadoras como a 2Blive, uma startup global focada em soluções tecnológicas para suprir a carência no ensino, especialmente em áreas de grande necessidade como a África. Investe ainda na empresa Flow Kana, sediada na California, e voltada para a produção científica da Canabis para diversos fins, como medicinal, produção de roupas ou uso recreativo. A todos esses ingredientes, adicione ainda um profundo conhecimento sobre vinhos e os caminhos deliciosos da enologia. Essa é a receita do que vocês encontrarão por aqui.

1 Comment

  • Me remete ao mito de Sisyphus…
    Mas sou otimista, estamos purgando nossos pecados, mas ao mesmo tempo desenvolvendo novas lideranças para as futuras gerações…

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